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  • 15-05-2024 08:00

Cláudia Rita Oliveira reflete sobre violência doméstica num filme sobre a mãe

Cláudia Rita Oliveira reflete sobre violência doméstica num filme sobre a mãe

Lisboa, 15 mai 2024 (Lusa) – A realizadora Cláudia Rita Oliveira estreia na quinta-feira um documentário sobre abuso psicológico e violência doméstica, a partir da história da mãe, que é também um retrato sobre o sistema judicial e social português.

“No Canto Rosa” é um filme em que a mãe da realizadora Cláudia Rita Oliveira dá a cara e o testemunho sobre o fim de uma relação e sobre o processo judicial movido contra o ex-companheiro, condenado em 2021 por abuso psicológico e violência doméstica.

“Este filme é sobre presas e predadores numa sociedade patriarcal. Somos a mesma espécie, acho que não devia haver presas e predadores, [mas] acho estranho que as coisas socialmente estejam organizadas dessa forma e essa reflexão é feita através da história da minha mãe”, contou a realizadora à agência Lusa.

O documentário estrutura-se a partir de uma entrevista à mãe, feita num canto simbolicamente pintado de cor-de-rosa, na qual descreve como era a relação, como se deteriorou, como se sentiu no processo de separação, porque é que decidiu pedir ajuda e avançar com uma queixa-crime.

“A entrevista foi uma espécie de ponto de situação. [Ela] Dizia que não era vítima e a palavra vítima é perversa. A entrevista foi no sentido de ela assumir o lugar onde estava, numa posição de fragilidade”, explicou a realizadora.

Há pormenores que são deixados de fora, como o nome do agressor, locais ou dados de maior intimidade por questões legais do processo judicial, conduzido ‘pro bono’ pelos advogados Ricardo Sá Fernandes e Inês Rogeiro.

No filme, a realizadora registou ainda o quotidiano da mãe, que passou a viver com um botão de pânico e com um diagnóstico de ansiedade e depressão, e juntou também filmagens de arquivo da família e uma pequena nota biográfica, dos relacionamentos anteriores da progenitora.

Cláudia Rita Oliveira acrescentou ainda um contexto social, de um tempo em que havia crimes de desonra, durante o Estado Novo, até à consagração de direitos das mulheres na Constituição de 1976, já em democracia.

É ainda mostrado o documento oficial que, nos anos 1970, conferiu o divórcio do primeiro casamento da mãe, numa intromissão do Estado na intimidade do casal.

“Eu ponho ali aquele documento para mostrar como o Estado tem o poder de decidir sobre o corpo da mulher, se teve ou não relações. É o Estado que está a fazer uma apreciação sobre o que ela deve ou não fazer. O Estado diz como é que a mulher se deve comportar”, lamentou a realizadora.

Para Cláudia Rita Oliveira, o filme testemunha ainda um sistema legal que nem sempre protege as vítimas.

“Nós temos leis que são bastante progressistas, mas as pessoas que estão à frente, a receber, não estão preparadas, ou não há pessoas suficientes para dará apoio a situações como esta. E nos meios mais pequeninos… É um sistema que está minado. Apesar das leis, não protege a vítima”, criticou.

O ex-companheiro da mãe foi condenado em 2021 a dois anos em meio de prisão, com pena suspensa, a mãe “perdeu o medo e a culpa”, mas continua a ter um botão de pânico e “está uma pessoa mais fechada e isolada”.

“O canto rosa”, a segunda longa-metragem de Cláudia Rita Oliveira, foi concluída em 2022 e sucede ao documentário “Cruzeiro Seixas - As cartas do rei Artur” (2017).

A realizadora espera que o filme ajude ao debate sobre violência doméstica, mas quer fechar este capítulo e seguir caminho.

Com “O canto rosa”, a realizadora abriu a produtora Madame Filmes, para trabalhar outros filmes sobre questões de género.

“O filme marcou-me naquilo que sou como pessoa e no que quero fazer profissionalmente. Tenho dois projetos, estou a escrever e a fazer investigação e tem a ver com questões de género. (…) Quero fazer filmes sobre os direitos das mulheres, cis ou trans. Porque agora despertei para essas questões”, disse.

Um dos projetos que vai desenvolver é com o Coro das Mulheres da Fábrica, de Coimbra, um projeto de canto e de partilha. “Elas consideram-se operárias da voz”.

Outro dos projetos, já mais adiantado, em fase final de rodagem, é o documentário “Mulheres de Abril”, de Raquel Freire, sobre “as mulheres que estiveram atrás da revolução de Abril” de 1974.

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Lusa/fim