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15/02/2018
Évora, Portugal
 

Montado é "aliado" contra alterações climáticas mas requer gestão sustentável

 

 

 

Montado é "aliado" contra alterações climáticas mas requer gestão sustentável

 

Évora, 15 fev (Lusa) – O montado, ecossistema característico das regiões mediterrânicas e que ocupa milhares de hectares no sul do país, sobretudo no Alentejo, é um “aliado” contra as alterações climáticas, mas pode estar ameaçado sem uma gestão sustentável.

“A importância” do montado “é máxima” porque este ecossistema confere ao território “uma maior resiliência aos problemas associados às alterações climáticas”, realça à agência Lusa Pedro Azenha Rocha, responsável no Alentejo pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF).

O diretor regional do ICNF explica que este tipo de exploração da terra, que combina a agricultura, a criação de gado e a floresta de azinheiras e sobreiros, permite acumular “mais matéria orgânica e quantidade de água no solo”.

“As árvores fazem, de certa forma, uma barreira aos próprios efeitos das alterações climáticas e o montado é por excelência a ocupação florestal mais adequada para o sul de Portugal”, observa o especialista.

E “um bom sistema de montado”, continua, tem outro contributo para mitigar as alterações climáticas. As árvores e o subcoberto arbustivo fazem “mais sequestro de carbono” do que um “montado com uma densidade baixa”, ou seja, retiram da atmosfera dióxido de carbono (CO2), um dos principais gases com efeito de estufa.

Os fogos florestais, que fazem disparar as emissões de CO2, têm no montado um “inimigo”, assinala, corroborado por Mário de Carvalho e Carlos Pinto Gomes, investigadores do Instituto de Ciências Agrárias e Ambientais Mediterrânicas (ICAAM) da Universidade de Évora (UÉ).

O sobreiro, do qual se extrai a cortiça, de que Portugal é o principal produtor mundial, “é uma árvore adaptada à passagem do fogo”, que “nunca chega à intensidade de fogo a que chegam outras árvores”, afirma Pedro Rocha, acrescentando que os incêndios também são “travados” com a “gestão regular ou mais intensiva do subcoberto florestal” no montado.

“É excelente para reduzir o risco de incêndio” porque, como é “gerido pelo pastoreio, não há biomassa para arder” e “é exemplo de biodiversidade”, enfatiza Carlos Pinto Gomes, admitindo que, com o aumento da temperatura e redução da pluviosidade, o montado, no futuro, possa vir a “povoar” mais o centro e norte do país.

Mário de Carvalho também atribui a resistência do montado aos fogos à biodiversidade e à ausência de matos. Só que é uma “solução” feita à medida da grande propriedade do Alentejo.

“Nada disto é viável em propriedades de meio, um, dois ou três hectares”, como acontece no centro e no norte, pelo que, para resolver os fogos, é necessário “ultrapassar o problema da estrutura fundiária”, nem que seja com “uma gestão integrada” da floresta nessas regiões, argumenta.

Apesar de bem adaptado no sul do país, alerta o diretor regional do ICNF, o ecossistema montado é “bastante complexo”, resultante do equilíbrio das presenças do homem, do gado e das árvores, e requer gestão cuidada e sustentável, ainda mais face às ameaças do clima.

“O montado tem cada vez menor densidade” e “está mais velho”, o que é “um problema” e obriga a medidas: “Temos de salvaguardar a regeneração natural e diminuir a carga de pastoreio”, assim como evitar práticas “mais lesivas”, como “a utilização de maquinaria” perto das árvores, defende.

Nas imediações de Évora, habituado a “conviver” com as secas cíclicas que assolam o Alentejo, como a atual, o produtor pecuário Caetano Oliveira Soares duvida que as alterações climáticas já se façam sentir na região.

Mas, mais por razões económicas, já há quase 30 anos que alterou a gestão dos 900 hectares da sua Herdade da Camoeira, que explora em sistema de montado. Antes, com solos que já eram pouco férteis, “não era rentável a criação de gado”, relata a Lusa.

“A produção de erva na propriedade era muito baixa”, pelo que desistiu de fazer searas e começou a adubar as pastagens, conta.

Esta aposta na recuperação da fertilidade do solo produziu resultados, aumentando a produção de pastagem, o que lhe permite alimentar o gado bovino e os cavalos que cria sem precisar de investir tanto em suplementos para os animais.

“As pessoas dizem que é preciso um investimento muito grande. É curioso porque, em vez de fazer a seara, gastei o mesmo dinheiro a adubar. Os resultados é que foram muito melhores”, realça.

A exploração “partiu com 1% de matéria orgânica no solo” e tem, “neste momento, 3% de matéria orgânica”, sublinha à Lusa o investigador Mário de Carvalho, que tem sido o “maestro” da gestão praticada nesta herdade alentejana.

E, quanto ao sequestro de carbono, em quase 30 anos, segundo os cálculos do académico, cada hectare desta herdade retirou da atmosfera uma quantidade de CO2 “equivalente à utilização de cerca de 60 mil litros de combustível” fóssil.

“É a matéria orgânica do solo que faz a maior parte do sequestro de carbono, portanto, não basta ter as árvores, temos é de cuidar da matéria orgânica”, defende.

Especialista em agricultura de conservação, sistema baseado na sementeira direta, sem mobilizar a terra, e em técnicas que favorecem o aumento do teor de matéria orgânica no solo, o docente aponta que este é o caminho, face às alterações climáticas: “O clima é aquilo em que não podemos mexer. A única possibilidade é melhorar as funções do solo”.

Um projeto com “carimbo” europeu, o LIFE “Montado-Adapt”, também está em curso em Portugal e em Espanha para promover a adaptação do montado nacional e da “dehesa” espanhola às mudanças do clima.

A iniciativa, de quase 3,5 milhões de euros de investimento, dos quais dois milhões são ajudas comunitárias, está a começar a ser implementada e quer demonstrar práticas de uso da terra sustentáveis e rentáveis neste tipo de ecossistema.

“A ideia é prever novas utilizações associadas ao montado, ver o que ele nos dá além do tradicional”, da lenha, da bolota, da cortiça, das culturas e das pastagens, “e pensar como o podemos valorizar”, realça o responsável do ICNF, uma das entidades parceiras do projeto.

Igualmente envolvido no projeto, o investigador Carlos Pinto Gomes diz que quer replicar “os bons exemplos” de gestão do montado. Mas, para estimular os agricultores, sugere mais apoios da União Europeia às práticas mais amigas do ambiente.

A União Europeia “não apoia ainda o suficiente, mas pode vir a apoiar. Se existir uma majoração ao nível das subvenções para as boas práticas agropecuárias”, favorecedoras da conservação da biodiversidade, “não tenho dúvidas de que o agricultor só tem vantagens”, afirma.

Quem não se arrepende da gestão adotada na sua herdade de montado é Caetano Oliveira Soares: “Conseguir que o meu solo armazene mais água é bom, havendo ou não alterações climáticas. Arrependo-me é de não ter feito mais, porque os bons resultados que vamos obtendo vêm sempre de termos mais cuidado e atenção com o solo”.

RR//MLM

Lusa/Fim

 

Cork oak forest helps fight against climate change but needs sustainable management

 

Evora, Feb. 15 (Lusa) – The oak forest ecosystems are typical in the Mediterranean regions and cover thousands of hectares of the Alentejo region of Portugal. They are an ally in the struggle against climate change but are threatened by unsustainable management.

The oak forest's importance is huge because it helps the territory against climate change problems, Pedro Azenha Rocha, the head of Alentejo pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), told Lusa.

Mr Rocha said that this kind of land use that combines farming, livestock raising and cork and holm oak forests helps the land to store more organic material and water in the soil.

Trees create a kind of barrier against climate change and the oak forest is an excellent use of the soil in the south of Portugal, he said

Oak forests can (even) help mitigate climate change, he added. The trees and the shrubby undergrowth sequester more carbon dioxide than low-density oak forests. In other words, they help scrub carbon dioxide, which one of the main greenhouse gasses, out of the atmosphere.

Mário de Carvalho and Carlos Pinto Gomes, researchers at the 'Instituto de Ciências Agrárias e Ambientais Mediterrânicas (ICAAM) at the Universidade de Évora, say wildfires, which emit huge amounts of CO2, can be slowed down by oak forests.

The cork oak has adapted to wildfires and is never affected as much as other trees, he said, andwildfires are also hindered by the constant management of the shrubby undergrowth in the forests.

It really helps reduce fire risk as it is managed to provide grazing so there is no biomass that can catch fire. It is an example of biodiversity, but increasing temperatures may mean less rainfall so the oak forest might to spread northwards, he said.

Mário de Carvalho agreed that the oak forests were more resistant to wildfires, helping biodiversity as they were less prone to undergrowth. The only problem, however, is that this solution only works in large estates in the middle of Alentejo.

This would be impossible in small holdings in the centre or north of the country that have only 2 or 3 hectares. What this means is that we have to overcome the landholding problems in this part of the country, even if it means having to have common management of all the forest in these regions.

The ICNF director said that despite being well adapted to the south of the country, the oak forest system is quite complicated and depends on the presence of man, livestock and trees and it requires careful, sustainable management to face up to climate change.

The oak forests are getting thicker and older, which creates problems demanding new measures. We have to ensure natural regeneration and reduce the effects of grazing and the harmful effects of using machinery close to the trees.

Local livestock farmer Caetano Oliveira Soares, from Evora, who is accustomed to droughts every so often, doesn't believe in climate change as they are just natural cycles that sweep over the region, he says.

Nonetheless, he altered the management of his 900 hectares of oak forest almost 30 years ago. At that time, the earth was infertile and useless for raising cattle, he said.

We couldn't grow much here, so we stopped growing cereals and started fertilising the soil to grow forage

The investment in improving the quality of the soil paid off. He was able to increase grazing so he could manage to feed cattle and horses without having to invest in animal supplements.

People say you have to invest a lot. But it's odd, because instead of spending so much on cereals, I just spent it on fertilizer for pastures. The results are much better, he said.

The property began with just 15% organic matter in the soil and it now has 3%, researcher Mário de Carvalho told Lusa, as he has been overseeing the management of this estate in Alentejo.

He went on to say that every hectare of the estate has been removing as much CO2 from the atmosphere every year for the last 30 years as is produced by about 60,000 litres of fossil fuel.

The organic matter in the soil sequesters most of the CO2, so we don't just need trees, we have to take care of the organic matter, he said.

"We cannot play with the climate so our only possibility is to improve how the soil works, he added

RR//MLM

Lusa/Fim