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  • 18-12-2018 08:21

Gripe espanhola: Guerra e crise política ajudaram pandemia em Portugal

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Lisboa, 28 abr (Lusa) – A “gripe espanhola”, que matou 50 milhões de pessoas em 1918, encontrou em Portugal “um terreno particularmente vulnerável”, para o qual contribuíram várias adversidades, como a I Guerra Mundial e a crise política de uma república ainda jovem.

A leitura é da historiadora Fernanda Rollo, atual secretária de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, para quem a pandemia potenciou a já tétrica trilogia da miséria, da guerra e da morte.

“Instala-se em Portugal e encontra aqui um território muito favorável e teve efeitos desastrosos”, afirmou.

Segundo a historiadora, “Portugal é um país que, no final do século XIX e início século XX, está ainda muito distante do que é o desenvolvimento económico, social, político e cultural de outros países similares no contexto europeu”.

“O contexto demográfico em Portugal é muito particular, com cinco milhões de habitantes”, recordou, observando que já tinham existido outros surtos e, que, após a implantação da República em 1910, surgiram “algumas tensões acrescidas”.

O início da Guerra Mundial, em 1914, vem agravar a situação do país logo nesse ano, quando Portugal “sofre um impacto muito forte no contexto dos abastecimentos, dada a sua dependência de quase tudo”.

“Apesar de não entrar na guerra de imediato, como beligerante, vai de imediato enviar tropas para Angola e Moçambique. O que significa que já vamos participando nesse esforço de guerra com o envio desses quase 30 mil soldados”, observou.

A gripe chega “num contexto social muito desfavorável. Portugal entra na guerra em 1916. Todas as situações de abastecimentos, de salubridade, das cidades, do país inteiro, vão-se agravando muitíssimo nestes anos”.

“Quando a gripe chega, encontra aqui um terreno particularmente vulnerável e favorável para que possa espraiar-se e ter os índices que teve, sobretudo em todo o país, mas com uma especial incidência nas cidades, por força da pressão e do encontro demográfico”, referiu.

Para Fernanda Rollo, “ninguém está preparado para dar resposta a uma pandemia desta natureza. Ninguém, nenhum país estava preparado”, tal como “as pessoas não estão preparadas, não têm conhecimento nem instrumentos para lhe fazer face”.

“Não temos serviços públicos organizados, as infraestruturas não estão preparadas para ter um impacto destes. E aquilo que é determinante: não temos ciência, não temos conhecimento organizado, para compreender, prevenir o impacto da pneumónica em Portugal, tal como não se tinha no contexto internacional”, prosseguiu.

De acordo com a historiadora, “quer a I Guerra, quer a pneumónica, quer as duas em conjunto, determinaram profundamente a história” de Portugal, “da memória das pessoas e do seu percurso”.

Também conhecida como pneumónica, porque os doentes morriam de pneumonia, a pandemia teve duas vagas, uma no verão, outra em outubro, matou cerca de 50 milhões de pessoas em todo o mundo, mais do que a I Guerra Mundial, das quais entre 50 mil e 70 mil em Portugal, e ainda hoje é incerta a sua origem.

SMM // HB

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