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  • 18-12-2018 08:15

Há 30 anos que Júlia Almeida anda a ver passar os comboios de bandeira na mão

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Autor: José Duarte Neves


*** Serviços áudio e vídeos disponíveis em www.lusa.pt ***

Por José Duarte Neves, da agência Lusa

Oliveira de Azeméis, Aveiro, 21 abr (Lusa) – O comboio que partiu de Águeda com direção a Espinho circula à tabela. Numa passagem de nível em Oliveira de Azeméis, Júlia Almeida fecha manualmente as cancelas e pega na bandeira vermelha para indicar que a linha está desimpedida.

Há 34 anos que esta guarda de passagem de nível zela pela segurança dos atravessamentos rodoviários na linha do Vouga.

Nos últimos anos, a supressão e automatização de várias passagens de nível tem levado esta exigente profissão à extinção.

Na década de 1960, havia cerca de 1.650 guardas de passagem de nível. Atualmente, de acordo com dados da Infraestruturas de Portugal, são 92, a maioria das quais trabalha na linha do Vouga. São 66 mulheres e um homem, para ser mais preciso.

Júlia Almeida, de 66 anos, não acredita que a profissão esteja a acabar. “Ouço dizer que sim, mas eu não acredito muito que isto acabe assim. Isto é de ferro, dura muito. Já quando eu vim trabalhar, diziam que isto ia fechar e que era por pouco tempo”, afirmou à Lusa.

Desde então, já passou por várias passagens de nível até tornar-se efetiva na passagem de nível situada junto ao apeadeiro de Couto de Cucujães, em Oliveira de Azeméis, onde divide o trabalho com mais duas colegas, em turnos de oito horas.

Diz que escolheu esta profissão porque lhe permitia trabalhar a dois passos de casa e “dava para cuidar das filhas”. “Um dia, ia a passar e uma senhora que estava aqui disse que podia vir para aqui e eu tentei. Vim e gostei e já estou aqui desde 1984”, afirmou.

Um homem que decide atravessar a via a pé, com a cancela fechada, é repreendido por Júlia Almeida, que realça que este é um trabalho de grande responsabilidade e muito poucas vezes reconhecido.

“Não vale a pena a gente estar a fazer guerra com as pessoas porque elas não entendem e, por vezes, tratam-nos mal. É como os dos carros, se acontece ter mais um minuto a cancela fechada já somos aquelas todas e mais algumas e a gente deixa ir e não responde”, diz, resignada.

À passagem do comboio, levanta a bandeira vermelha, enrolada, para indicar que a via está desimpedida, e reabre as cancelas para permitir a passagem dos carros e peões.

"Se houver algum obstáculo na via, só tenho de desenrolar a bandeira ou usar a lanterna com uma luz vermelha, no caso de ser de noite, para mandar parar o comboio", explica.

Os petardos, que se colocam sobre o carril para rebentar com a passagem dos rodados do comboio, são o último recurso para avisar o maquinista de que há algum problema.

Júlia Almeida conta que só os usou uma vez, há cerca de dois anos, quando um trator se desengatou do atrelado e ficou imobilizado no meio da passagem.

“O comboio estava a sair de Oliveira de Azeméis. Entretanto, avisei o chefe de linha e o maquinista. O comboio já vinha com precaução, mas de qualquer maneira fui pôr os petardos, só que já não foi preciso, e fui lá tirá-los outra vez”, contou, adiantando que além deste episódio não teve mais nenhum problema.

Após a passagem do comboio, a vigilante refugia-se no pequeno abrigo situado junto à passagem de nível, onde passa a maior parte do tempo. O regulamento diz que não pode ter televisão ou outros aparelhos eletrónicos e, por isso, o tempo de espera pelo próximo comboio é passado a tricotar. “Já fiz muitas toalhas de mesa para as filhas”, afirma.

Depois de mais de três décadas de serviço, esta heroína anónima da segurança de pessoas e de bens, prepara-se para deixar as passagens de nível e passar à reforma. “Estou à espera que me mandem embora. Já meti os papeis em fevereiro”, atira.

JYDN // MCL

Lusa/Fim