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  • 01-10-2018 12:24

Cinema futurista no sul de Angola nunca recebeu filmes e está ao abandono há 45 anos

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Autor: Marcos Focosso@ext


Moçâmedes, Angola, 31 mar (Lusa) - Inspirado nas criações do brasileiro Oscar Niemeyer, o cine-estúdio do Namibe, em Angola, foi concluído em 1974, na então cidade de Moçâmedes, mas no seu interior, de construção futurista, nunca foi projetado qualquer filme ou realizado algum espetáculo.

Desenhado pelo arquiteto português Botelho Pereira, o cine-estúdio foi concluído precisamente na véspera da independência angolana e da guerra civil que se alastrou a partir de 1975 a todo o país, pelo que o edifício, que deveria ser a primeira sala de cinema da capital do Namibe, ficou votado ao abandono e à delinquência.

As gerações mais novas do Namibe desconhecem mesmo o propósito do edifício, inalterado desde que nasceram e apesar de várias promessas, frustradas, de reabilitação do espaço ao longo dos últimos anos.

"Antes de nascer, já encontramos este cinema e (…) nós nunca o vimos a funcionar", explicou à Lusa Domingos Carmona, estudante de 30 anos que sempre viveu na cidade do Namibe, que recentemente retomou a designação de Moçâmedes, a mesma do período colonial português.

Domingos joga à bola no exterior do cinema que nunca o foi e recorda que chegou a ver o edifício vedado, indiciando o início da recuperação, mas que não passou de promessas até agora.

"Tiraram as chapas, mostra que a reabilitação não se fez sentir. Encontra-se num estado péssimo, não mostra boa imagem da província", apontou o jovem estudante, lamentando que quase 45 anos depois da conclusão daquela obra, o Namibe continue sem uma sala de cinema.

"O desejo era ver lá dentro como é, mas do jeito que está não oferece condições. É possível que ali dentro apareçam jovens delinquentes ou encontrar alguém que faça mal", avisa.

O imponente edifício tem cerca de 20 metros de altura e chega a ser descrito como uma espécie de óvni da década de 70. É por ali que José Manuel, ajudante de pedreiro, passa todos os dias, a caminho de casa, mas sem certezas sobre o que o edifício representa.

"Já encontrei feito, mas nunca ouvi falar para que serve", aponta, num cenário comum à generalidade dos mais jovens da terra.

Ainda assim, José Manuel, de 26 anos, confessa que já ouviu falar que o espaço serviria de cinema para a cidade: "Todo o pessoal gostaria de o ver a funcionar como cinema. E era importante recuperar o passado.

Devoluto e vandalizado, o interior conserva ainda alguns mosaicos e azulejos originais, além de esculturas em alto-relevo nas paredes sobre as atividades tradicionais, do campo e da pesca, do período colonial português.

Todo o edifício, que integra a lista dos cinemas e teatros históricos de Angola ao abandono, está acessível e por isso serve como local de tráfico de droga durante a noite e um recreio improvisado para as crianças e jovens das escolas vizinhas de dia.

"Nunca vimos o cine a trabalhar. Só ouvi da boca dos meus pais e dos meus avós", atira, em conversa com a Lusa, Domingos dos Santos.

Este estudante de 19 anos sabe apenas que o edifício "foi construído pelos brancos", como cinema, função bem diferente daquela para a qual hoje serve.

"Vêm fumar e beber ali. É perigoso, é pena", lamenta.

PVJ // FPA

Lusa/Fim