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  • 01-10-2018 12:27

Râguebi é janela de liberdade para quem vive atrás das grades em Sta. Cruz do Bispo

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Autor: André Sá


Matosinhos, Porto, 01 abr (Lusa) – Depois de anos a viver atrás das grades, as reclusas do Estabelecimento Prisional de Santa Cruz do Bispo, em Matosinhos, sentem liberdade quando o desporto, em especial o râguebi, chega à prisão e lhes ensina a trabalhar em equipa.

Expulsa de outra cadeia por ser “uma rebelde” e com esquizofrenia desencadeada pela droga, Rita, de 37 anos, está presa “há muito anos, muitos mesmo”, tantos que não quis revelar quantos, mas diz ter encontrado paz em Santa Cruz do Bispo, onde “o desporto é o melhor que há”.

É num pavilhão revestido a azulejos coloridos, bem apetrechado de equipamentos desportivos, que as reclusas se libertam das regras da cadeia e até dançam, animadas, enquanto esperam pelos treinos.

Rita integra um grupo de reclusas que procura encontrar algum equilíbrio - físico e mental - naquele pavilhão, onde desde janeiro entra o râguebi, através de um projeto pioneiro que visa contribuir para a formação, educação e reintegração social daquelas mulheres que assumem a máxima “um por todos e todos por um”.

A ideia é que treinadores e jogadores do CDUP “interajam com elas e lhes passem princípios e valores de râguebi, que não são exclusivos do râguebi, são do desporto em geral e também da vida, como humildade, lealdade, respeito e espírito de equipa”, destacou à Lusa Gonçalo Pinheiro Torres, da direção daquele clube do Porto.

“Aqui tenho encontrado pessoas com quem converso e espremo algo dessa conversa, tenho tutano dessa conversa. Não são muitas, são poucas, mas aqui encontrei paz [e vejo] as pessoas a esforçarem-se mais para virem aqui e fazerem râguebi”, desabafou com satisfação Rita, que vê que agora há “muito mais interatividade” e “muito mais interesse” entre todas.

O esforço para marcar presença nos treinos significa, sobretudo, a adoção de comportamentos adequados na prisão.

Joana Rocha é a professora responsável por aquelas horas de desporto tão desejadas pelas mulheres e destaca o facto de poder assim proporcionar a cerca de 20 reclusas, com idades entre os 22 e os 55 anos, “acesso à educação física, que é uma mais-valia para a vida, pelos valores que lhe estão inerentes”.

A professora não tem dúvidas de que os treinos “aumentam a autoestima, o autocontrolo e a autoimagem” destas mulheres, que, na sua maioria, viveram até então longe do desporto.

Esta aprendizagem, disse, “é extremamente importante para qualquer indivíduo, principalmente para quem está privado da sua liberdade”, e o facto de o râguebi ali chegar com “pessoas externas ao estabelecimento é um fator positivo para elas”.

Para Jéssica, de 23 anos e presa por tráfico de droga há quase dois, aquele momento desportivo “faz esquecer um bocado o ambiente de cadeia” e permite “libertar mais as energias”.

“Toda a gente pensa que o râguebi é um desporto muito agressivo, mas nós aqui aprendemos a colaborar com as pessoas com quem se calhar não temos tanta afinidade, rimos de nós próprias e é produtivo para muitas reclusas que têm mais agressividade, [por] aprenderem a controlar a agressividade, a própria pessoa e a própria personalidade”, notou.

E esta modalidade de “contacto físico, de combate”, mas com regras que se traduzem numa “prática [desportiva] limpa, saudável, com espírito de alegria e entendimento entre todos”, chega a Santa Cruz do Bispo após a Rugby com Partilha - Associação de Promoção da Prática de Rugby nos Meios Prisionais, de Lisboa, ter desafiado o CDUP a avançar com o projeto pela primeira vez numa cadeia feminina, explicou Pinheiro Torres.

“E no pavilhão descarregamos o stresse, limpamos a mente (…) e esquecemos os nossos problemas”, desabafou Alina, que agradece sobretudo o não estar “tanto tempo fechada”.

Elisa, a quem o crime lhe veda por agora o acompanhar do crescimento dos filhos, sente o mesmo: “Ajuda muito na mentalidade e a passar o tempo”, em especial quando o objetivo é “ir embora”.

É exatamente o “estar fora da cela” e fazer “todas as semanas um jogo com o pessoal que vem de fora” que Nélia, de 50 anos, valoriza, acrescentando que aprende a ser “solidária com as colegas” e a ganhar forças para se “desviar da droga e ir ter com a família” assim que cumpra a pena de prisão.

Para o CDUP, conseguir que as reclusas levem esses princípios para fora da prisão “seria fantástico”, mais ainda quando o projeto prevê a manutenção da interação entre o clube e estas mulheres, mas num campo descoberto, com medidas oficiais e 15 jogadoras de cada lado.

JAP/ACYS // JGJ

Lusa/Fim