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  • 05-05-2018 03:00

Catedrático aposentado dedica-se a criar peças decorativas em madeira

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Autor: Eudora Ribeiro


Murtosa, Aveiro 24 Jan (Lusa) – Fernando Nunes Ferreira, professor catedrático da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, aposentou-se da atividade académica e dedica-se agora à criação de peças decorativas em madeira.

Em garoto entregava um pedaço de laranjeira a um vizinho para este lhe fazer um peão. Hoje são os amigos que lhe entregam pedaços de madeira que transforma em peças decorativas.

Nascido na Murtosa, Fernando Ferreira dedicou a vida à Universidade: além de professor catedrático, foi diretor do Departamento de Engenharia Eletrotécnica e de Computadores durante a década de 90, subdiretor da Faculdade de Engenharia na primeira década de 2000, e provedor do Estudante da Universidade do Porto, de 2010 a 2016.

Chegada a hora da aposentação, viu nos trabalhos em madeira uma oportunidade de se manter ativo.

“Um filho meu ofereceu-me, há muitos anos, um livro pelo meu aniversário, que tinha por título “Preparar a Reforma” e eu acho que é fundamental uma pessoa que se reforma ter, pelo menos, uma nova atividade”, comenta.

Recusou ficar de “braços cruzados” e escolheu trabalhar a madeira, uma atividade tão nova para ele que teve de aprender do zero.

O pai foi taxista, não tinha na família quem se dedicasse a trabalhos em madeira e só vagamente a memória lhe lembrava um velho torno a pedal, onde foi feito o peão das suas brincadeiras.

No entanto, o gosto em “fazer coisas” associa-se ao ambiente de infância.

“O meu gosto por criar coisas tem um pouco a ver com esse ambiente inicial. Saía à porta e em frente havia uma oficina que consertava bicicletas, ao lado estava um senhor que fazia sapatos… via fazer coisas. Por incrível que pareça, dava-me mais gozo fazer os meus brinquedos do que depois brincar com eles…”, recorda.

Mas madeira, madeira mesmo, só fazer umas estantes lá em casa. Nunca se atrevera a mais.

É um autodidata que foi experimentando aqui, colhendo ensinamentos acolá… A internet revelou-lhe um manancial de recursos.

“Na internet encontram-se milhares de vídeos explicativos e é fácil identificar e encontrar bom material para consulta e estudo”, esclarece.

Foi inclusive através da internet que comprou o seu torno, depois modificado na Murtosa para poder trabalhar peças maiores, e é na Net que compra a maior parte das ferramentas e materiais: lixas, óleos, ceras, equipamentos de afiar.

Leva-nos ao seu atelier da casa do Monte, que reabilitou. Cá fora, num alpendre, secam os pedaços de madeira que lhe vão dando. Lá dentro, com o torno a girar, encosta a goiva ou o formão para dar outra forma ao bloco de madeira que fixou, ou faz o acabamento amaciando com lixas, óleos e ceras a rugosidade superficial.

Já no Museu Comur, onde tem algumas peças expostas, conduz-nos o olhar às peças que considera mais exemplares e descreve: “gosto de explorar os aspetos mais anormais da madeira. Em vez de os disfarçar tento até os realçar”.

Tira partido dos nós, das rachadelas, dos aspetos que tornam singular para pedaço de madeira para depois de o trabalhar tornar único também o resultado final.

“Os percursos feitos pelos bichinhos que andam lá dentro também podem ser aproveitados. Tenho precisamente aqui uma peça que foi aproveitada de pinho muito carunchoso e isso deu-lhe um rendilhado final muito engraçado”, mostra.

Sobre o tipo de madeira com que melhor trabalha, Fernando Ferreira diz que “praticamente toda a madeira resulta”, mas não esconde que a sua eleita é a de oliveira.

“Os senhores que vendem lenha para queimar, já sabem que quando aparece oliveira ou carvalho guardam-me. A oliveira é uma madeira relativamente fácil de trabalhar, com um aroma bastante agradável e tem veios espantosos que depois podem dar uma bela peça”, esclarece.

No entanto vai mostrando com orgulho trabalhos feitos com pereira e com raiz de cameleira e encanta-se a si próprio com o colorido das peças feitas de pessegueiro ou damasqueiro.

Interpreta a madeira, vê por onde seguem os seus veios, deixa expostas as suas fraturas e imperfeições, realça-lhe contornos que têm algo a dizer. É artesanato? É arte? Fernando Ferreira não sabe ao certo como definir o que sai das suas mãos e remete para o público a resposta, já que, pela primeira vez, expõe trabalhos no Museu Comur, na Murtosa, até dia 14 de fevereiro.

MSO // MSP

Lusa / Fim