Número de Documento: 10400697
Lisboa, Portugal 29/11/2009 07:58 (LUSA)
Temas: História, Política, Diplomacia
Lisboa, 29 Nov (Lusa) - O ex-presidente Jorge Sampaio disse à agência Lusa que Taiwan "tem os olhos postos em Hong Kong e Macau" e que Portugal deveria ter criado condições para o estabelecimento de um posto diplomático avançado no Pacífico.
"Digamos que ficou por fazer o que se não preparou nas décadas anteriores - Macau, posto diplomático avançado de Portugal, quando de há muito era previsível que neste século XXI o eixo do mundo tenderia a deslocar-se progressivamente do Atlântico para o Pacífico", afirma o ex-chefe de Estado Jorge Sampaio numa entrevista, por escrito, à Lusa, a propósito dos 10 anos sobre a passagem de administração de Macau de Portugal para a China e que se assinala no dia 19 de Dezembro.
Para o ex-Presidente da República, Jorge Sampaio, "o esforço permanente até à transferência de poderes foi, por um lado, criar um quadro político evolutivo que garantisse a representação e a participação da comunidade, bem como os seus direitos e, por outro lado, um modelo de desenvolvimento económico mais moderno, que assegurasse a prosperidade de Macau e fortalecesse a sua sociedade civil".
Sampaio, que regressou a Macau em 2005 e em 2008, refere que a região administrativa especial "mudou muito" e avalia de forma positiva o desempenho das autoridades políticas locais na última década.
"A Declaração Conjunta obriga as autoridades chinesas a manter um quadro de continuidade essencial em Macau, nomeadamente no que se refere às instituições, aos direitos liberdades e garantias e ao modo de vida próprio de Macau. No essencial, esses compromissos puderam ser assegurados durante os dois mandatos de Edmund Ho como Chefe do Executivo da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM)".
Quanto à realização em Macau de eleições directas a curto ou a médio prazo, Sampaio afirma que "Taiwan tem os olhos postos em Hong Kong e Macau" e, nesse sentido, acrescenta que a "aceleração do processo de reunificação e o ritmo de abertura da República Popular da China à democracia electiva determinarão o prazo da realização de eleições directas na RAEM".
Jorge Sampaio acredita que essas eleições podem vir a realizar-se a "médio prazo" mas sublinha que "acima de tudo essa avaliação pertence à comunidade política de Macau".
Para Jorge Sampaio, "Portugal e Macau têm uma relação forte, cujos pilares são a história comum e os vínculos que nos unem às comunidades macaenses", por isso o ex-presidente da República defende que Portugal tem como "obrigação fortalecer esses pilares e manter um empenho real nas dimensões educativa e cultural, nomeadamente com a Escola Portuguesa de Macau e o Instituto Português do Oriente, bem como nas relações com a Universidade de Macau".
Sendo assim, Sampaio considera que há "um grande trabalho" a fazer no ensino da língua portuguesa em Macau e na China e que o intercâmbio deve ser reforçado.
"Parece-me fundamental a aposta no intercâmbio científico e cultural, o aproveitamento dos nichos de mercado ainda em expansão, o encorajamento e a viabilização das relações Macau/China/Portugal/União Europeia", defende Jorge Sampaio, que, como chefe de Estado foi responsável pela transferência da administração de Macau em 1999.
Dez anos após a cerimónia que marcou o fim de mais de 450 anos de administração portuguesa em Macau, Sampaio afirma que se o "futuro está sempre por escrever" as ligações do passado não terminaram.
"As relações entre os povos nunca são um capítulo encerrado. Bem pelo contrário, são caracterizadas por um grande dinamismo e, por isso, o futuro está sempre por escrever. Por outro lado, importa a Portugal manter laços estreitos com Macau e desenvolver, nomeadamente os intercâmbios culturais que são a marca duradoura da nossa presença nessa parte do mundo", afirma Sampaio que considera que do "fim do Império" ficam sempre as relações entre os povos.
"Afinal de contas, fechar a porta do Império é apenas o fim do Império. Se findo ele não ficassem as relações entre os povos, então eu não poderia ter dito, em 19 de Dezembro de 1999, quando, em nome de Portugal, me despedi desta fase da História: 'valeu a pena'".
PSP.
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